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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

XVI- A primeira vez é inesquecível


Praia em João Pessoa
A primeira vez que viajei sozinha, de férias, poderia ter sido trágica. Nos meus tempos de militância política, eu cumpri algumas “missões” em outras cidades, quase sempre viajando desacompanhada. Quando me iniciei na carreira jornalística, também andei por aí sozinha, fazendo coberturas. Acontece, contudo, que, no jornal onde eu trabalhava, os editores davam preferência para que os repórteres que tinham filhos pequenos tirassem suas férias nos meses que coincidiam com o recesso escolar, ou seja, em julho ou em dezembro e janeiro. Sendo assim, eu nunca conseguia companhia para viajar, quando podia me ausentar do trabalho.
Pois bem, após meu primeiro ano com Carteira assinada, os chefes me autorizaram a tirar férias no mês de junho. Não me lembro mais porque, decidi passar 15 dias em uma praia, no Sul da Bahia. Uma longa viagem de ônibus, com duas baldeações, debaixo de uma chuva torrencial. Aliás, ninguém havia me informado que, nessa época do ano, costuma chover - e muito - no Nordeste, inclusive no litoral. O lugar, que hoje é um badalado ponto turístico, na época era praticamente uma aldeia, com apenas uma Pousada, onde me hospedei, e da qual, durante três dias, não arredei o pé. A chuva não dava trégua. Por sorte, eu havia levado bons livros, um dos quais a “Autobiografia de uma moça bem comportada”, de Simone de Beauvoir.
No quarto dia o sol saiu. Influenciada pela intelectual francesa, que cruzava a França sozinha, de bicicleta, decidi fazer uma longa caminhada pela praia. Preparei um lanche, coloquei uma garrafa de água na bolsa e saí, antes das 8 horas da manhã. Caminhei até a desembocadura do rio, há cerca de cinco quilômetros da vila, um lugar paradisíaco onde o encontro da água gelada do rio, com a temperatura morna do mar provocava uma sensação maravilhosa no corpo todo.
Após banhar-me, sentei-me sobre a toalha estendida na areia e, quando me preparava para fumar um cigarro, pressenti que alguém me observava, por detrás das dunas. Uma situação que, absolutamente, não estava prevista em nenhum livro que estava lendo. Dois pensamentos passaram imediatamente pela minha cabeça: eu tinha que agir rápido e não podia entrar em pânico. A aldeia, reduzida a minúsculos pontos cinza no horizonte, parecia mais longe que os cinco quilômetros que nos distanciavam. Eu não aguentaria correr até lá e, se tentasse, seria uma presa fácil. Não, pelas costas ninguém iria me derrubar. Então, com calma, enrolei a toalha na cintura, coloquei minhas coisas na sacola e saí andando, em passo aparentemente normal. Olhando de esguelha, eu via o topo de uma cabeça, por trás das dunas, me acompanhando, a pouco mais de dois metros. Em meio aos pedregulhos eu avistei um caco de vidro e abaixei-me, rapidamente, para apanhá-lo. Decididamente, eu não seria uma presa fácil.
Foi quando comecei a ouvir aquele barulho característico de pés rangendo a areia molhada, logo atrás de mim. Apertei mais o passo e vi, ao longe, muito longe, o vulto de um casal que caminhava em minha direção. A sensação de alívio parece que me energizou. De um impulso, virei e deparei-me, cara a cara, com aquele que me seguia, um mulato forte e atarracado. Com as pernas trêmulas, mas ainda aparentando calma, eu lhe perguntei de chofre:
- Você também gosta de caminhar?
O homem se assustou com aquela minha reação e, parece, naquele momento é que notou o casal que se aproximava. Saiu disparado em direção às dunas.
No dia seguinte voltou a chover. Arrumei minhas coisas e abreviei minhas férias. Sozinha, em praia deserta, nunca mais.

gnogueirabh@yahoo.com.br

4 comentários:

  1. guria de Deus!
    gostei da tua atitude, do teu texto, e precisei te escrever pra te dizer que foi super legal ter lido isso (apesar de ter achado horroroso o episódio).
    já fiz 8 países da europa mochilando sozinha, fiz também a costa oeste norte-americana de cabo a rabo como backpacker e não tenho a menor vontade de mochilar pela américa latina por conta desse tipo de situação que você contou.
    aconteceu algo parecidíssimo comigo em floripa, na praia mole, de manhã bem cedo, e veja que nem era um lugar assim tão... tão escondido... é uma praia que fica numa capital, poxa...
    um grande beijo!

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    1. Oi Bee,
      é isso aí, a gente tem que ter muito bom senso e estar sempre alerta para viajar sozinha. Se a luzinha vermelha piscar em nossa cabeça, é melhor parar e pensar.
      Você, com toda essa bagagem, tantas viagens, poderia dar algumas dicas dos Estados Unidos?
      Grande abraço e muito obrigada.
      Giselle

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  2. Olá Gisele:
    Viajando aqui pela net encontrei o seu blog e o assunto "Mulher que viaja sozinha" me interessou bastante porque também sou adepta das viagens sozinhas, e não solitárias.

    Tenho 39 anos completados agora em novembro, e o que mais gosto de fazer é viajar. Tiro férias de 15 dias a cada seis meses, situação que facilita a realização de duas viagens por ano.

    O viajar sozinha requer bastante cuidado principalmente para não nos envolvermos em situações como essa que você relatou. Confesso que se fosse eu não sei como reagiria, mas você teve muita sorte com a vinda do casal.

    Estou indo na próxima semana para a Chapada Diamantina e complemento com alguns dias na Praia do Forte. Tablet e smartphone são nossos inseparáveis companheiros...risos...até mesmo para fazermos postagens nos blogs, que gosto de detalhar diariamente contando as nuances da viagem, e isso, como você falou é feito nos bares. Assim a gente sai, conhece pessoas e não fica com carão...rs

    E adorei a sua dia: um café e um licor! Vou fazer isso e mencionar no meu blog que foi dia do "Mulher que Viaja Sozinha".
    Um abraço e serei seguidora do site!

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    1. Oi Ângela,
      mensagens como a sua me dão muita alegria pois vejo que estamos conseguindo comunicarmo-nos. Estou voltando de uma viagem à Patagõnia argentina e em breve vou postar minhas impressões.
      Um grande abraço,
      Giselle

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